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Da ação de formigas à Estrela D’Alva: ‘profetas’ do Ceará anunciam previsões das chuvas para 2023 neste sábado (14), em Quixadá

Olhar para o céu, analisar diferentes sinais da natureza e, a partir desta leitura, traçar uma previsão para a quadra chuvosa. Esse ritual é feito todo fim de ano pelos chamados “Profetas da chuva”, sertanejos que, ao longo de gerações, se debruçam em análises específicas – e, por vezes, peculiares – na tentativa de antever como será o “inverno” no Ceará.  
Para 2023, a previsão é animadora. O grupo de Quixadá, formado por cerca de 30 profetas, e que se constitui no mais tradicional do Estado, prevê “bom inverno” neste ano. A previsão é semelhante a do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), cujo prognóstico é positivo para os meses de janeiro a março.
O anúncio oficial dos sertanejos será realizado neste sábado, dia 14, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), em Quixadá. Esta será a 27ª edição do evento. Neste ano, serão quase 20 Profetas reunidos para partilharem, de forma oficial, as análises realizadas por eles.
“Acredito que teremos um bom inverno”. A afirmação é da única ‘profetiza’ de Quixadá, a professora aposentada e escritora Maria de Lourdes Leite Lemos, de 86 anos.
Há pelo menos seis décadas Lourdes estuda e analisa os sinais da natureza. A tradição foi ensinada pelo pai dela. “Comecei cedo. Sempre fui muito precoce. Aos 6 [anos] já sabia ler e escrever. Com 15 anos eu já dava aula para 40 alunos. Tinha facilidade de aprender. E logo aprendi os ensinamentos do meu pai. Na adolescência já fazia as previsões do tempo”, explica a ‘profetiza’. 
Neste ano, ela se mostra otimista. “São vários sinais analisados. Um deles é a posição da Estrela D’Alva. Ela sempre passa no dia 10 de outubro, dessa vez, passou dia 6, é um dos sinais de que o inverno começa cedo”, acredita Lurdinha, como é conhecida. 
Na concepção de Erasmo Barreira, experiente ‘Profeta da Chuva’, a natureza fornece muitas pistas sobre o que está por vir. Ele afirma ser capaz de identificar o que irá acontecer na quadra-chuvosa, “basta entendermos” os sinais.
E são vários. Comportamento das formigas e do cupim, os ventos, nuvens, a posição da lua, experimentos com pedras de sal e até a forma com que o João-de-barro constrói sua casa pode indicar se o inverno será bom ou não.  
Todos esses sinais analisados apontam para um só prognóstico, conforme reforça Erasmo: “vai vir muita chuva”. Ele, no entanto, ressalta que nos meses de janeiro e fevereiro as precipitações devem ser de tímidos volumes, tendo sua intensidade aumentada a partir de março. “Vai ser bom”, completa o profeta que, dedica 60 dos seus 77 anos de vida aos estudos dos sinais da natureza.
Assim como Lurdinha, Erasmo também herdou de seu pai os ensinamentos que o tornaram um notório ‘Profeta da Chuva’. “Na década de 1960, ou um pouco antes, meu pai se reunia com outros fazendeiros e iam analisar os sinais para saber se o inverno seria bom. Aquilo era importante pois eles tinham gado, roça, então tinham que saber se as chuvas seriam positivas. Eu, com uns 10, 12 anos, acompanhava tudo”, rememora. 
De tanto observar, aprendeu. “Na prática”, completa ele. Com o falecimento de seu pai, Erasmo deu continuidade a tradição familiar e espera que a próxima geração faça o mesmo. “Meu filho, hoje, não realiza as previsões, mas já me garantiu que vai passar a fazer quando eu morrer”, conclui. 
Levantamento realizado mostra que as previsões dos “Profetas da Chuva” foram exatamente iguais ao resultado registrado ao fim da quadra chuvosa em sete dos últimos 11 anos (2011, 2013, 2015, 2018, 2019, 2020 e 2022).  
Neste ano de 2023, o percentual pode aumentar. Isto porque a previsão inicial do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também aponta para possibilidade de chuvas positivas no Ceará. O meteorologista do órgão, Flaviano Fernandes, explica que a tendência para os meses de janeiro, fevereiro e março é de “chuva entre normal a acima do normal”. 
Já a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) só deverá divulgar a previsão oficial para a quadra chuvosa (fevereiro-maio) no final deste mês de janeiro. 
Diário do Nordeste

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