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Caipirinha foi utilizada como remédio contra a gripe espanhola

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Tigela de água com alho, dióxido de cloro, pimenta com mel e gengibre, chá de artemísia, vitamina C e limão, limao e bicarbonato, chá de boldo, café, enxofre, ozonioterapia… Durante a pandemia de Covid-19, as redes sociais ficaram repletas de notícias falsas a respeito de remédios caseiros contra a doença.

A tentativa de combater doenças com esses tipos de medidas sem comprovação científica, no entanto, já vem do passado. Em Piracicaba (SP), interior de São Paulo, a receita de uma bebida que depois foi denominada como caipirinha começou a ser utilizada para combater a gripe espanhola em 1918, quando uma epidemia da doença se disseminava pela cidade.

Essa, inclusive, é considerada pelo Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac) como a origem da caipirinha. Há, no entanto, outras versões sobre a criação do drinque: uma envolvendo também Piracicaba e a alta sociedade local e mais duas relacionadas ao litoral do Rio de Janeiro, no século 19, no combate à cólera e escorbuto.

Nesta quarta-feira (13), Dia da Cachaça, o g1 Piracicaba detalha essas histórias envolvendo a origem do drinque nacional mais popular.

Piracicaba tinha pouco mais de 55 mil habitantes em 1918. O acervo do setor de Arquivo e Documentação da Câmara Municipal mostra que o impacto da gripe, entre 22 de outubro e 26 de dezembro daquele ano foi marcante, com 4.178 pessoas contaminadas, das quais 88 morreram. Hospitais de campanha foram criados na Universidade Popular e na Escola Normal.

Segundo os arquivos do Legislativo, a população em peso recorreu a uma mistura de pinga, mel e limão. Segundo o Ibrac, foi essa combinação supostamente terapêutica que deu origem à caipirinha.

“Disseram que precisava botar limão e alho para curar a gripe espanhola. E aí alguns médicos disseram que para aumentar o efeito terapêutico deveria se colocar algum álcool. E aí a decisão foi colocar cachaça. Como ficou muito forte, puseram mel de abelha para adoçar aquilo. Aí ficou como um remédio contra a gripe espanhola. Aí, depois que passou [a epidemia], se viu que ficou um drinque muito bom”, explica o cachacista Jairo Martins, que é pesquisador e ministra palestras sobre a bebida.

“Aí disseram que nem todo lugar se encontrava mel e o mel era mais caro, aí resolveram botar açúcar. Aí, para o Brasil inteiro, se acostumou a botar o açúcar. E tiraram o alho também, que dava o aspecto medicinal”, acrescenta.

No livro “A bailarina da morte — A gripe espanhola no Brasil”, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, também é dito que a receita caseira foi adotada como medida de desespero em meio à epidemia, mas foi comprovado que não tinha eficácia contra a doença.

Depois disso, também conforme o instituto, a bebida tornou-se conhecida na Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922. Inclusive, foi eleita o drinque oficial do evento por Tarsila do Amaral, que nasceu em Capivari (SP), cidade da região de Piracicaba.

Segundo relatos de pessoas próximas, ela também servia a bebida a amigos famosos quando morou em Paris, como o pintor Pablo Picasso.

“Acabou virando o drinque brasileiro que Oswald de Andrade e Tarsila de Amaral começaram a levar para a França para mostrar que no Brasil tinha uma cultura”, afirma Martins.

Aqui já entramos na segunda versão sobre a possível origem da caipirinha, que é do historiador Luís da Câmara Cascudo. Segundo ele, a bebida surgiu no meio do século 19 e foi criada por fazendeiros de Piracicaba, já que desde aquela época era uma das referências na produção de cana-de-açúcar.

A caipirinha era servida durante encontros de moradores de famílias ricas, como alternativa a outras bebidas que já eram normalmente consumidas, como vinho e uísque. Mas um tempo depois se popularizaria entre moradores de outras faixas de renda, pelo custo baixo dos ingredientes.

Segundo o historiador Diuner Melo, a cidade de Paraty (RJ), que foi referência nacional na produção de cachaça nos séculos 17 e 18, é onde surgiu a bebida. O acadêmico diz que, no arquivo público da cidade litorânea, encontrou uma receita do drinque em um documento, datado de 1856, para combate à cólera.

O documento é uma carta enviada por um engenheiro civil responsável por obras no cemitério da cidade à Câmara Municipal. Nela, ele relaciona o alto consumo de aguardente com a epidemia da doença que ocorria em Paraty.

Jairo Martins ainda cita outra versão relacionada a Paraty. “Quando os marinheiros ficavam muito tempo em alto mar, dava aquela doença que era o escorbuto, que ficava com as gengivas inchadas. Então, para se fazer a assepsia daquilo, faziam com que chupassem limão, e também tomar aguardente. Mas eram coisas separadas. Não era nada misturado que eles tomavam”, pondera.

O escorbuto é uma doença causada por deficiência de vitamina C na dieta alimentar e também pode gerar hematomas, cansaço e irritação na pele.

Jairo Martins acompanha o Ibrac e defende a versão da criação em Piracicaba contra a gripe espanhola, mas ressalta que não existe um consenso.

“Cada estado tem o seu bairrismo, né [risos]. Existem algumas histórias da caipirinha. Tem gente que até diz que ela foi feita pela dona Carlota Joaquina, que tomava cachaça com frutas. Aí conta-se essa dos marinheiros de Paraty, que tomavam também. Mas a versão mais correta é que ela foi realmente inventada na gripe espanhola, em 1918, em Piracicaba”.

A falta de consenso é comprovada até por documentos oficiais recentes. Em 12 de maio de 2014, a Câmara Municipal de Paraty aprovou um projeto de lei que “institui a bebida caipirinha como patrimônio cultural criada no município de Paraty em 1856”.

Mas até os documentos públicos admitem a indefinição. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou em 2 de outubro de 2019 um projeto que estabelece o drinque como patrimônio cultural, histórico e imaterial do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, o texto apresenta três versões de possível origem da bebida, duas delas em Piracicaba.

Portal G1

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