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Culpado ou inocente: o trigo merece mesmo todo o julgamento?

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O trigo é um dos cereais mais antigos da humanidade e um dos pilares da alimentação global. Ele integra a dieta de bilhões de pessoas há milênios e, mesmo em tempos modernos, continua sendo um ingrediente essencial em muitas cozinhas. Mas a popularização das dietas sem glúten, associada ao aumento de casos de alergias e intolerâncias alimentares, fez o trigo se tornar alvo de críticas e teorias controversas. Vamos desvendar se essas acusações têm base científica ou se estamos demonizando um alimento essencial.

O trigo: fonte de energia e nutrientes

O nutrólogo Dr. Ronan Araujo, explica que o trigo fornece carboidratos complexos — uma fonte de energia de longa duração —, além de fibras, vitaminas do complexo B e minerais essenciais. Dietas consagradas, como a mediterrânea, têm o trigo como base. Na Europa, por exemplo, o pão é parte da alimentação diária e não há uma epidemia de desconforto digestivo entre os consumidores regulares. O problema, então, não parece estar no trigo em si, mas talvez em como ele é consumido.

Para entender melhor, vamos conhecer a estrutura do grão de trigo:

  • Casca: Rica em fibras, vitaminas do complexo B e minerais.
  • Endosperma: A parte central, que é a principal fonte de carboidratos.
  • Gérmen: Onde se concentram proteínas, vitaminas e gorduras saudáveis.

Essas partes do grão compõem a farinha integral, que é mais nutritiva do que a farinha refinada, amplamente utilizada em produtos industrializados. A farinha refinada perde a casca e o gérmen, tornando-se menos rica em nutrientes e fibras.

O glúten: vilão ou necessário?

O glúten é a combinação de duas proteínas do trigo: a gliadina e a glutenina. Essa mistura é o que confere elasticidade às massas e faz com que o pão cresça e fique fofinho. Sem glúten, massas não teriam a mesma textura e sabor, o que torna o glúten um componente valorizado na panificação.

Porém, algumas pessoas apresentam reações adversas ao glúten:

  • Doença celíaca: Uma condição autoimune grave em que a ingestão de glúten desencadeia uma resposta imunológica que ataca o intestino delgado. Afeta cerca de 1% da população e exige uma dieta totalmente sem glúten.
  • Sensibilidade ao glúten não celíaca: Uma condição menos severa, mas que causa desconforto em algumas pessoas ao consumir glúten. Os sintomas podem variar, e a sensibilidade não está associada a uma resposta autoimune como na doença celíaca.
  • Alergia ao trigo: É uma reação alérgica às proteínas do trigo, não apenas ao glúten, e pode desencadear desde urticária até dificuldade para respirar.

Para a maioria das pessoas, no entanto, o glúten não apresenta problemas. “Há uma ideia errônea de que o glúten aumenta a inflamação no organismo, mas até hoje, nenhum estudo provou essa ligação para pessoas sem doenças associadas”, aponta o consenso de especialistas em nutrição. E vale ressaltar: cortar o glúten sem necessidade pode até trazer prejuízos, já que muitos produtos sem glúten contêm mais calorias e menos fibras, levando ao ganho de peso e à redução da saciedade.

A teoria do trigo “modificado” e a força do glúten

Algumas teorias populares alegam que o trigo moderno possui mais glúten do que antigamente e que ele foi geneticamente modificado, aumentando os casos de intolerância. Porém, essa ideia é considerada um mito. Na realidade, o trigo passou por melhoramentos para se adaptar ao clima e solo brasileiros e à panificação, onde a “força do glúten” — ou seja, a capacidade do glúten de formar uma rede mais resistente — foi aprimorada. Esse ajuste ajuda o pão a crescer mais e a ganhar uma textura mais macia, mas não aumenta a quantidade de glúten em si.

A onda de produtos sem glúten também surgiu da demanda de uma pequena parcela da população que realmente precisa evitar essa proteína. Mas, para a grande maioria, o glúten pode fazer parte de uma alimentação equilibrada.

O que realmente prejudica a digestão?

O médico Ronan Araujo, comenta que, muitas pessoas dizem sentir desconforto ao consumir produtos à base de trigo. Porém, o problema muitas vezes está nos produtos industrializados. Muitos pães, bolos e biscoitos comerciais contêm aditivos, conservantes e açúcar, que podem dificultar a digestão. Experimente comer um pão de fermentação natural, feito apenas com farinha, água e sal. A fermentação natural, além de dar um sabor mais autêntico, torna o glúten mais digerível, pois as enzimas do fermento “pré-digerem” parte das proteínas.

Quando o glúten deve ser evitado?

Cortar o glúten só é realmente necessário para quem tem doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca ou alergia ao trigo. Para outras pessoas, ele não traz riscos. Em vez de remover o trigo e o glúten por completo, focar em escolhas mais naturais e menos processadas pode ser a melhor abordagem para uma dieta equilibrada.

Com tantos mitos circulando, é fácil demonizar o trigo e o glúten. No entanto, a ciência nos mostra que, para a maioria das pessoas, eles podem fazer parte de uma alimentação saudável e balanceada. O trigo, especialmente na forma integral e consumido de maneira equilibrada, traz nutrientes importantes e energia para o dia a dia. Restringir sem necessidade pode trazer mais danos do que benefícios.

“Se você sente algum desconforto digestivo, observe a qualidade dos produtos que consome e, se possível, opte por pães e massas com fermentação natural. O pãozinho do café da manhã ou a massa do fim de semana não precisam ser cortados — eles só precisam ser saboreados com consciência e equilíbrio.”. Conclui o Dr. Ronan Araujo.

Repórter Ceará

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