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Vila no Ceará oferece retiro para poetas e quem deseja se encontrar na arte

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Passado o asfalto, começa a areia. E o que era cinza, se converte em verde. Na Rua João Damasceno Ramos, 564, as coisas têm potencial de mudança. É nesse endereço em Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, que se localiza a Vila de Poetas, definida por um dos idealizadores como um “espaço de realização de sonhos”. Não é exagero.

A propriedade oferece retiro para todos que desejam se encontrar na arte. O foco são novas formas de criação artística e relações sociais em meio à calmaria da natureza e à energia do pé da serra. Esse combo de encantamentos é sentido desde a fachada do lugar, quando avistamos Reginaldo Figueiredo acenando com vigor. “Sejam bem-vindos!”.

Dali, o poeta, arte educador e historiador nos conduz para o recinto que serve como espécie de portal para o sítio. A Bodega Viva da Vila resguarda desde produtos artesanais a livros publicados por Reginaldo. A parte mais especial, contudo, fica a cargo da Poemoteca do Ser, cuja estrutura miúda e com ares mágicos oferece a primeira experiência ao visitante.

O processo envolve um jogo de cartas, palavras e reflexões, culminando num momento bastante íntimo de criação de poema e mergulho no autoconhecimento.

“Todas as pessoas que chegam aqui passam por essa vivência. O objetivo é dar mais liberdade a elas, fazer com que pensem nas coisas profundas. Não tem mistério nenhum: você verá o que tiver condições de ver. Eu não vou forçar”, explica o anfitrião, ao lado de duas bandejas de microvegetais.

Os rebentos de sementes germinados e colhidos na fase inicial de crescimento – neste caso, beterraba e cenoura – são referenciados por ele como bibliotecas, uma vez detentores de saberes. A lógica acompanha toda a existência da Vila de Poetas, permeada de uma aura na qual metáfora e realidade se confundem. Placas com versinhos nos chamam para dentro.

Nesse caminhar, vão se misturando diferentes figuras, refletindo o aspecto coletivo do território. Para se hospedar no local, por exemplo, são ofertadas várias casas – 16 lotes, no total – com disponibilidade acertada com cada dono. O valor para desfrutar dos serviços e o tempo de  permanência também é negociável. “De nada a não tem limites”.

No momento, 11 pessoas ocupam a propriedade. De forma específica, o lar de Reginaldo e da esposa, Ana Lourdes de Freitas, é dividido em seis chalés. Enquanto o casal reside em um, o restante fica disponível para o público. É uma estrutura super simpática, com amarelo convidativo e cheia de cantinhos inspiradores – as varandas, os quartos, os batentes. 

Na hora de criar, quem desejar ficar ao livre tem opção por diversas mesinhas com cadeiras,distribuídas pelo terreno. É de imaginar que escritos e mais escritos surjam a partir desse cotidiano único.

Mas Reginaldo destaca: “São casas de passagem, inclusive a nossa. Tem gente que passa muito rapidamente, tem gente que demora mais. Todos deixam rastros, coisas, imaginações, uma vez que criamos a realidade a partir daí. Por isso mesmo, queremos conosco quem deseja se autoconhecer para se autorrealizar. O maior serviço que ofertamos é o convívio”.

Quem se hospedar com o poeta e Ana Lourdes, inclusive, viverá algo bastante tradicional, remontando às primeiras comunidades. Na parte da alimentação, tudo o que eles consomem é vivo.

As acomodações oferecidas, por sua vez, são igualmente simples e rústicas. Sem luxo, porém cravejadas de cuidado. É preciso desprendimento para estar ali. Há um lema a ser seguido: uma vez que os quartos já receberam e ainda receberão pessoas, deixe o cômodo melhor do que você o encontrou.

Fora desse âmbito privado, a Vila de Poetas ainda dispõe de biblioteca, quadra esportiva, parquinho para crianças, horta e a sombra de várias árvores – tudo de livre acesso e adornado com criatividade. “É muito comum chegar pessoas na Vila sem boa condição econômica. Nosso único critério é receber gente que quer fazer uma mudança na vida”.

A julgar pela manhã que passamos por lá, não é difícil sentir o emocional se transformando. Entre um papo e outro, Reginaldo e os outros habitantes da Vila recitam poemas e engatam canções.

É bonito de ver, a gente flutua. A generosidade se espalha por toda a extensão do sítio, e é resultado dos processos que culminaram na criação do espaço.

A Vila de Poetas nasceu em 2012 fruto de outra iniciativa, o Templo da Poesia. O movimento surgiu quatro anos antes no Centro de Fortaleza tendo como centralidade a estruturação de um universo cultural de cuidados.

Nele, a espiritualidade, a ação em rede, as práticas solidárias da economia, da agroecologia, bem como da busca e exercício do autoconhecimento das linguagens da arte, dão sentido a um modo de existir aberto e criativo.

Além do próprio Reginaldo Figueiredo, nomes como Carlos Amaro, Nilze Costa e Silva, Ana Lourdes de Freitas, Manuel César e Ítalo Rovere são as colunas vertebrais da ação, que depois se desdobrou a 40 minutos dali, em Maranguape.

O terreno original onde está a Vila de Poetas pertence a Ítalo Rovere que, por meio da parceria com Reginaldo, abriu as portas da casa para mais casas e trabalhos, numa comunhão singular de sentimentos.

Na programação fixa da Vila, está o sarau – no segundo sábado de cada mês – e atividades como a que será desenvolvida nesta terça-feira (25), Dia do Escritor. Prestarão uma homenagem a Capistrano de Abreu (1853-1927) na praça de Maranguape.

“Foi um dos primeiros brasileiros a contar a História do Brasil. A intenção é colocar várias mesas na praça e fazer um momento poético e cultural junto à estátua dele”, adianta Reginaldo.

Após tomarmos suco de coco – delicioso – e ouvirmos a onipresente cantiga das cigarras, chega a hora da despedida. Todo mundo acompanha a equipe de reportagem até a entrada da casa.

O instante acontece depois de largarem a louça na pia – com vista deslumbrante para a serra de Maranguape– e da passagem animada de Reginaldo com o pequeno Amandir, filho de um dos hóspedes, na Tricicloteca, composta por livros e mais livros. 

Recitam: “No planeta Terra/ bilhões de células compõem a minha herança./ São tão pequeninhas/ que quase ninguém fala sobre elas./ Ao dia de hoje, revelo a minha gratidão/ pois não espero nada do amanhã./ Nem o ontem para mim existe./ Sem disputar com ninguém,/ herdo de mim mesmo tudo que me habita”.

Hoje, vivo isso e disso”, celebra o poeta. “Já fui até premiado devido à minha trajetória. Esse prêmio, por sinal, me ajudou bastante nas construções da Vila. Aqui, aprendi a respeitar as plantas, os detalhes, a vida, as pessoas. Plantei uma árvore para presentear a Ana de Lourdes. É um pé de uma espécie de feijão”, conta.

“Gosto de pensar que quem vier pra cá também desenvolverá isso, essa energia. O portão fica aberto, todos podem entrar. Estão livres. Que façam da vida um poema, e possam cantá-la em versos de alegria”.

Vila de Poetas
Rua João Damasceno Ramos, 564 – Novo Maranguape II, Maranguape (CE). Mais informações sobre hospedagens por meio das redes sociais do espaço e do poeta Reginaldo Figueiredo. 

Diário do Nordeste

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