Deslumbrantes ou singelas, com lajedos ou cavernas, lendárias ou simplesmente bonitas. Cachoeiras são parte da paisagem cearense e nunca deixam de encantar. A boa notícia é que estão pertinho e vão além do banho refrescante ou da beleza descomunal. Apontam para algo maior, relacionado à riqueza natural do Estado e à necessidade de preservação.
São detalhes encontrados em “Cachoeiras do Maciço de Baturité”, livro publicado e realizado pela Fundação Waldemar Alcântara com recorte específico sobre o lugar em questão. Registros de 13 quedas d’água dão conta de expressar a magnitude do território – apesar de simbolizar apenas parte das cachoeiras do entorno.
“Isso sugere até a possibilidade de ampliação da obra futuramente”, prevê o professor e historiador Levi Jucá. Segundo ele, uma equipe composta de guias locais e fotógrafos contratados pela Fundação mapeou as treze, sob o critério de serem consideradas as mais representativas, conhecidas e acessíveis.
Municípios como Aratuba, Mulungu e Redenção não foram incluídos na edição, mas também possuem importantes exemplares de cachoeiras. Entre as que entraram na conta agora, estão a Cachoeira do Amor, no Sítio Cipó, em Baturité; a Cachoeira Redonda, no Sítio Limeira, em Mulungu; e a Cachoeira do Cruz, no Sítio Cruz, em Guaramiranga.
“Cachoeiras alertam sobretudo para a necessidade da preservação do patrimônio natural aquífero – nosso maior bem, posto que sua existência é garantia de vida”, avalia Levi. No livro, ele assina o texto “Águas passadas movem moinhos: Por Uma História Ambiental da Serra de Baturité”, em que reflete sobre o valor dessas joias.
“Expressei o quanto elas representam para a história e a relevância da Serra de Baturité, primeira e maior Área de Proteção Ambiental – APA do Ceará. Os rios Pacoti e Aracoiaba, além de seus afluentes, ajudam a abastecer Fortaleza e Zona Metropolitana. Portanto, reverenciar as cachoeiras, para além de suas belezas, é lembrar da necessidade de preservação para garantir a rica biodiversidade local e a segurança hídrica de muitos cearenses”.
Uma das organizadoras do livro, Sílvia Furtado corrobora a ideia de Levi. A publicação, pensada e produzida em 2022, faz parte de um propósito alimentado ao longo dos 40 anos de existência da Fundação Waldemar Alcântara: mostrar mais o Ceará. “Um território já conhecido por suas praias e sertões, e que abrange ainda serras, matas, rios e veios d’água”.
De acordo com ela, entre as 13 fotografias da obra, 12 foram feitas por Janderson da Silva Lima e uma por Marcos Campos Sales. Há ainda dois textos de apresentação, com foco na história da região e na importância de cuidar do meio ambiente. Em resumo, um panorama completo para exaltar nossa fartura.
“Com esse livro em tamanho de fácil manuseio queremos que o leitor sinta-se motivado a conhecer o Maciço e a admirar as belezas naturais que ainda sobrevivem, apesar da especulação imobiliária”, tensiona. Esse também é o principal desejo de Levi Jucá para o título: que não seja apenas lido, mas experimentado.
“Isso porque o próprio livro sugere a presença da localização geográfica de cada cachoeira através de QR Code, sugerindo ao leitor que possa visitá-las. A versão digital do livro pode ser acessada e baixada gratuitamente através do site da Fundação Waldemar Alcântara”.
Por fim, para além do já apresentado, por que as cachoeiras são tão importantes? De que forma elas desenham a estrutura natural do Ceará? E qual a mais representativa? Para Levi, a mais emblemática é a Bica do Ipu, ao sul do Planalto da Ibiapaba, na qual Alencar fez Iracema se banhar.
“Pela elevada altitude, e a formação da cuesta/Chapada, é a nossa ‘véu de noiva’ cearense”, sublinha. Por sinal, mesmo predominando no Estado as planícies sertanejas, alguns rios correm pelo sertão, encontrando desníveis no terreno e formando o que alguns sertanejos também chamam de pequenas cachoeiras.
É o caso de um distrito da zona rural de Maranguape, de nome Cachoeira. Ele tinha essa formação no riacho que atravessa a localidade, mas infelizmente o lajedo foi praticamente descaracterizado sob uma ponte moderna construída ali, apagando a identidade do topônimo local, no curso da rodovia que leva à Palmácia.
“Pela história e memória pesquisada, sabemos o quão mais pujantes e límpidos já foram esses cursos d’água. O que nos leva a alertar sobre os graves problemas do presente, como a poluição via lançamentos de efluentes (esgotos), o desmatamento e a perfuração indiscriminada de poços profundos que matam nascentes, além da especulação imobiliária”.
Diário do Nordeste



